Chilli Beans pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 340 milhões com bancos

A maior rede de óculos escuros da América Latina fechou acordo com os principais credores para alongar a dívida e receber até R$ 50 milhões em recursos novos. A receita prevista para 2026 é de R$ 940 milhões, queda de 6%.

Amérik

31/10/2026 07h00 · 31 de outubro de 2026

Chilli Beans pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 340 milhões com bancos

A Chilli Beans protocolou na sexta-feira, dia 30, um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 340 milhões em dívidas com bancos. A notícia saiu no fim da tarde no NeoFeed, na Exame e na Mercado&Consumo.

A empresa é a maior rede de óculos escuros da América Latina, tem cerca de 900 franquias no Brasil e está presente em mais de 14 países. A marca ficou conhecida pelo crescimento rápido, pela identidade própria e pela presença em shoppings de todo o país.

Acordo envolve só os bancos e traz até R$ 50 milhões novos

Na recuperação extrajudicial, a empresa negocia com os credores fora do tribunal, fecha um acordo de novos prazos e condições e só depois leva o plano à Justiça para homologação. O caminho costuma ser mais rápido e menos traumático que o da recuperação judicial, porque a operação segue normalmente e quem não está no acordo fica de fora do processo.

O plano da Chilli Beans atinge apenas as dívidas com instituições financeiras. Fornecedores, funcionários e demais parceiros comerciais não entram. Segundo a empresa, o acordo já foi fechado com os principais credores, que vão aportar até R$ 50 milhões em dinheiro novo para financiar a reestruturação. Itaú, Akron Capital e Vega Asset aparecem como financiadores âncora e coordenam essa entrada. Desconto, carência e cronograma de pagamento não foram divulgados.

O pedido vinha sendo desenhado havia meses. No começo de setembro, a empresa negou publicamente que preparasse uma recuperação judicial e afirmou estar em negociação amigável com os bancos para alongar prazos e reduzir juros, como registrou o CidadeMarketing. Na mesma época, anunciou a chegada de André Dela Togna, executivo que já havia comandado a Paquetá, como vice-presidente responsável pela área financeira ao lado do fundador, Caito Maia.

De acordo com o NeoFeed, a pressão nos meses anteriores vinha das debêntures, títulos de dívida vendidos a investidores. Parcelas de julho e agosto de uma emissão de fevereiro de 2025, que somavam R$ 16,5 milhões, não foram pagas, e o próprio Caito é avalista dessa dívida. Em outra emissão, de R$ 89 milhões, a securitizadora Vert declarou o vencimento antecipado no fim de setembro.

Do estande no Mundo Mix a R$ 1 bilhão de receita

A trajetória começou em 1997, quando Caito montou um estande de óculos no Mercado Mundo Mix, em São Paulo, e depois passou para a Galeria Ouro Fino. O primeiro quiosque veio em 2000, no Shopping Villa-Lobos, e as primeiras franquias em 2001. A marca acostumou o consumidor brasileiro a pegar os óculos na mão, experimentar sozinho no espelho e voltar toda semana atrás de modelo novo.

Em agosto de 2022, em entrevista à Forbes, Caito contou que a receita havia sido de R$ 650 milhões em 2021 e que a meta era chegar a R$ 1 bilhão naquele ano. As lojas vermelhas, formato mais tradicional da rede, respondiam por 75% do faturamento.

Os números publicados agora pela Exame mostram a sequência. A receita foi de R$ 890 milhões em 2023 e chegou a R$ 1 bilhão em 2025. Para 2026, a previsão é de R$ 940 milhões, queda de 6%. A rede, que já teve 1.300 lojas, opera hoje com cerca de 900 franquias no Brasil.

Juros altos dos dois lados do balcão

À Exame, Caito apontou o principal fator. "O primeiro foi o aumento brutal dos juros", disse. A alta pegou a rede em duas pontas ao mesmo tempo: a dívida da franqueadora ficou mais cara, e o franqueado, que paga a conta da loja, também passou a gastar mais para se financiar e girar estoque.

A inadimplência dos franqueados dá a dimensão do problema. Historicamente perto de 3%, o índice foi para perto de 22% depois da pandemia e, segundo Caito, voltou hoje para cerca de 4%. Com mais de um em cada cinco parceiros atrasando pagamento naquele período, o caixa da franqueadora sentiu na hora, e a empresa passou a recorrer ao banco para cobrir um buraco aberto na ponta.

O mesmo mecanismo aparece em marcas bem menores. Quem cresce vendendo a prazo para multimarcas, abrindo revenda ou montando franquia vê o faturamento subir enquanto o dinheiro continua na rua. Quando o juro sobe e o lojista atrasa, a marca toma capital de giro para pagar a coleção seguinte, e em pouco tempo os juros desse empréstimo viram uma das maiores despesas da operação.

Lojas novas e a saída do criador da pimenta

A operação segue. Em outubro, a Chilli Beans abriu 9 pontos no Brasil e 4 na América do Sul, segundo a Exame e o Times Brasil. Lançou a coleção Rock Fellas 2026, fechou parceria com a BAW Clothing e prepara modelos dos dez anos de parceria com o Alok.

A Mercado&Consumo apurou, por outro lado, que José Caporrino, head de criação e autor da pimenta que virou o logo da marca, deixou a empresa. A saída acontece no meio da reestruturação, numa marca que sempre viveu de lançamento semanal e de identidade visual forte. Caito já avisou que 2027 terá muito mais foco em qualidade e eficiência do que em quantidade.

Contas a receber no centro do caixa

As marcas de moda costumam dever bem menos que a Chilli Beans, mas o aperto de caixa que atingiu a rede segue a mesma lógica em escala menor. Alguns pontos ajudam a medir esse risco:

  1. O prazo dado ao lojista antes do faturamento. Quem vende para lojista em 60, 90 ou 120 dias, ou tem a venda toda parcelada no cartão e antecipa tudo, enxerga um faturamento bom com o dinheiro ainda fora da conta. O primeiro passo é somar quanto está hoje na mão de terceiros.
  2. O atraso do lojista acompanhado toda semana. Na Chilli Beans, a inadimplência dos franqueados chegou perto de 22% depois da pandemia. O valor vendido para revenda e multimarca que ainda não entrou deveria estar na planilha semanal, ao lado da venda.
  3. Crédito para crescer separado de crédito para tapar furo. Tomar empréstimo para comprar uma coleção que já tem demanda pode fazer sentido. O empréstimo para pagar a coleção passada porque o lojista não pagou costuma ser o começo da bola de neve, e a hora de renegociar é antes de ficar sem opção.
  4. Ponto novo só depois de lucro nos atuais. Cada revenda, quiosque ou marketplace a mais traz custo, estoque e risco, e a conta precisa ser feita ponto a ponto antes da expansão.
  5. Cautela ao cortar a criação. Em crise, a tentação é cortar tudo que não é venda direta, só que são a criação e a foto que fazem a cliente reconhecer a peça no feed sem ler o nome.
  6. Negociação cedo. A Chilli Beans fechou acordo com os principais bancos e ainda conseguiu dinheiro novo deles. Banco e fornecedor tendem a negociar em condições melhores com quem chega com um plano pronto.

Fontes: NeoFeed, 30/10/2026, Sérgio Vieira · Exame, 30/10/2026, Layane Serrano · Mercado&Consumo, 30/10/2026 · Times Brasil, 30/10/2026, Nicholas Siqueira · CidadeMarketing, 02/09/2026 · Forbes Brasil, 08/2022 · Suno história da marca